quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

T.P.

Eu chego e sento-me aqui. Tu chegas e sentas-te ali. Olhas para mim e não encontro ponta de expressão na tua cara. Eu sorrio-te sem nunca receber troco. Mantens-te ali, fazendo do silêncio uma barreira para nós. Passados uns segundos ela entra e senta-se ao teu colo. Tu sorris, aconchegas-a para ti e dizes-lhe coisas bonitas baixinho. Dás-lhe presentes e atenção, brincas com ela. Ficam assim uma eternidade. Enquanto em mim cresce a revolta.
Ela olha para mim e vem ter comigo, finalmente alguém me dá sinais de que eu estou realmente viva. Sabe quem sou e diz “Não o chames pai, chama Zé!” e volta para perto de ti. A revolta continua a crescer. Tu continuas a dar-lhe atenção e mimos. Ela já nem dá valor ao que fazes por ela, pois sabe que te tem ali. Estás-lhe garantido. És pai, é suposto estares. Eu se calhar também pensava assim e tu foste-te embora. Que pena.
Ela vem ter comigo e tenta brincar a alguma coisa. Mas tudo de uma maneira muito forçada, como quem faz um favor só mesmo por simpatia ou porque tem que ser e porque parece bem. Ela não sabe brincar e as tentativas são falhadas, só me magoa e ri-se que nem uma perdida. E a revolta cresce.
Tu chama-la de novo e continuas a dar-lhe tudo o que ela não merece. Eu começo a chamar por ti. Levanto-me da cadeira e tento falar convosco. Nem sequer para mim olham. Eu toco-te no ombro e sorrio, a revolta já crescida ainda não me deita ao chão.
Sento-me de novo e começo ás voltas na cadeira. A revolta corroi e eu não aguento. Não tenho que aguentar mais. Grito. Vocês páram e olham para mim. Torno-me alguém. Vêm ter comigo e mostram-se preocupados. Agora? AH!, é tarde. Mas é tarde mesmo. Eu vou-me embora. Caguei.

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