segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

A COR dos dias

(Tinha andado a pensar nisto á semanas e senti que até mesmo para mim, valia a pena escrever.)

Já tinham os planos feitos. Desgastados pelo cansaço rotineiro do trabalho, agora podiam sorrir, como suspiro de tranquilidade. Iam passar umas semanas a Itália. Estavam profundamente a precisar de um ar diferente, de pessoas diferentes, de cheiros e vistas diferentes. Ele ia poder tirar fotografias lindas e novas, como tanto adorava. E essencialmente precisavam de acordar o seu amor. Precisavam de encontrar-se. Ambos sabiam que o seu amor estava vivo, e bem vivo, mas adormecido. Agora tudo ia ser diferente e para muito melhor.
Um dia antes de comprarem os bilhetes, ele desapareceu. Como o mar ás vezes é capaz de engolir pessoas, assim, sem deixar rasto. Ele já devia ter perto de 100 chamadas não atendidas no telemóvel. E ela? Ela permanecia naquela revolta. Sem saber o que fazer, o que pensar. Não sabia se ele tinha fugido com outra, ou se tinha tido algum acidente. Aquela espera que se tornou hábito na segunda semana, já quase sem esperança, abria-lhe uma ferida cada vez maior. Com a raiva que sentia, voltava-se contra as coisas e chegou a partir coisas de valor para os dois. Já não lhe faziam sentido. Chorava. Chegou até mesmo a emagrecer. Já tinha tentado tudo para o encontrar, mas até a mãe dele estava incontactável. Sentia-se tão vazia.
Em Lisboa. Ele estava em Lisboa. E essa foi a última ideia que lhe ocorreu, levou-a avante - ia a Lisboa. Era onde morava a mãe dele e era o último e único sítio possível para ele estar. Ficou um mês sem dar sinal de vida.
- Filho, a Sofia está lá fora. O que é que faço?
- A Sofia? Tenho tantas saudades dela, mãe. Eu vou lá para dentro. Podes abrir.
- Porque é que demorou tanto tempo a abrir a porta? Está a esconder-me alguma coisa? É? O seu filho está aqui, não está? Eu sei que sim. Não precisa de me mentir. Quero vê-lo e quero que me explique o porquê de tudo isto!
A mãe dele continuava calma, via os olhos de Sofia cheios de raiva e fez o que tinha que ser feito. Em silêncio, entregou-lhe uma carta escrita por ela, que o filho lhe ditou. Pegou-a furiosamente e sentou-se a lê-la:
“Imagino como te sentes neste momento Sofia. Por isso não vou estar a lembrar-te da asneira que fiz, ainda presente. Quero explicar-te o porquê. Quero que leias isto até ao fim.
Os meus dias perderam a cor. Os caminhos já habituais, tornaram-se desconhecidos. Cada passo que dou parece contribuir para a aproximação de um precipício. Tenho medo. Muito medo. Sinto-me desencaixado de um puzzle. Parece impossível, mas sou aquela peça que não se encaixa em nada. É tudo tão calmo, mas ao mesmo tempo tão confuso e barulhento. Estamos na Primavera, está tudo tão bonito e eu não consigo ver. Bato contra as coisas, magoo-me. O que mais me custa é que me tornei depende. Depende das pessoas e deste MUNDO! Estou a aprender tudo de novo. Como uma criança a aprender a andar. A nossa árvore que via crescer com amor, foi cortada pela raiz. Não te consigo explicar o quanto isto é difícil. Nem eu consigo acreditar como tenho conseguido certas coisas. Estou no começo e estou tão farto. Sinto-me vazio e sem valor. De que me vale ir viajar contigo agora? De que me vale construir um futuro? De que me vale seguir atrás do meu sonho da fotografia? Tenho que desistir de tudo. Porque tudo deixou de fazer sentido. Até mesmo o estar contigo. Eu já não te mereço. QUAL É A MULHER QUE SE INTERESSA A FICAR COM UM CEGO? POR PENA? Não quero que fiques comigo assim. Prefiro que vás embora sem me dar oportunidade de sentir o teu perfume. Porque isso é a única coisa que me resta.
Amo-te imenso Sofia. Desculpa-me, desculpa-me por tudo.
Foi o melhor, não quero que sofras por isto.”
O silêncio e as suas lágrimas inundaram a sala. Tudo tinha mudado. Ele não resistiu em entrar e foi ao encontro do seu perfume. Ela levantou-se e deu-lhe um abraço. Ficaram assim como se a eternidade lhes pertence-se. E ele sentia-a agora, mais que nunca. Encontraram o que era verdadeiro. O que realmente importava.
- Sofia, eu fui ao médico e disseram-me que estava a ficar cego. Não havia volta a dar. Não queria assustar-te…
- Shhhh! Sentis-te o abraço?
- Senti.
- É isto que vale a pena. Sentir.
Ele passou-lhe as mãos do rosto como se estivesse a descobrir cada traço e cada coisa que lhe pertencia. Ela esboçou um sorriso choroso e ele conseguiu perceber.
- Estás a chorar. Não quero que chores.
- O teu mundo não perdeu a cor, ganhou uma nova vida. E nessa nova vida irás continuar comigo. Eu quero ficar contigo para sempre.
Beijaram-se.
Voltaram para o Porto. E aprenderam tudo de novo, juntos.



Imagina isto contigo. Fecha os olhos por um momento e diz-me o que sentirias se não os pudesses abrir mais. Achas que as pessoas que te acompanham continuariam contigo?

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