sábado, 12 de dezembro de 2009

Pai Natal?

Eu sempre acreditei tanto naquela magia e presentemente quando olho de relance é banal. É um simples homem velho (ou não), vestido de pai natal, a fazer “OH OH OH!”, sentado numa cadeira a fazer sorrisinhos forçados e a tirar fotografias.
Hoje consegui observá-lo como o observava com 4, 5 ou 6 anos. Recuei um bocadinho. Não era apenas eu, todos nós pensávamos nisto e foi isto que me lembrei:
ERA O PAI NATAL! O velhote mais fofinho que já vi que vivia num mundo encantado que todos desconhecíamos (mas sabíamos tal e qual como ele era). Cheio de magia, onde todos eram felizes, onde não existia pobreza nem maldade, onde todas as crianças tinham direito ao que é devido. Um mundo com uma fábrica enorme, cheia de duendes a trabalhar a 100 á hora para todas as crianças terem os brinquedos pedidos.
Fora desse mundo estávamos nós acreditando que era o Pai Natal que nus dava as prendas, vindo num trenó com uma data de renas (uma delas chamada Rodolfo com o nariz vermelho) pelo céu, á noite. Alguns de nós deixavam até bolachinhas e um copinho de leite, caso ele tivesse fome (verdadeiramente, nisso nunca apostei, porque sempre o achei demasiado gordo e isso iria fazê-lo ficar ainda mais). Era tudo tão bom e tão real. Tão mágico e diferente do que costumávamos ver. Fazia-nos tão felizes aquele tempinho que perdíamos a escrever a carta com uma lista ENORMISSIMA (nem todas assim com esse exagero) de presentes, sem nos importarmos. Porque Pai Natal que era Pai Natal tinha que trazer tudo! Mesmo sem ainda termos os presentes, era maravilhoso escrever. Porque tínhamos a verdadeira esperança de que iriam vir parar á árvore na noite mais mágica. A ansiedade, o nervosismo, quase inexplicável. A explosão de felicidade, esquecendo tudo o resto.
Ele estava ali, ao pé de mim. Apeteceu-me ser criança outra vez, correr para ele e pedir-lhe tudo. Abraçá-lo e memorizar-lhe a cara para mais tarde contar a toda a gente que o vira. Mas nisto, via outras crianças a fazê-lo no meu lugar. Umas passavam de mãos dadas com a mãe, com tanta pressa que nem tinham tempo de observá-lo com jeito. Outras deixavam a mãe andar para a frente, corriam para ele, pediam colo, davam-lhe beijinhos e abraços, mexiam na barba e fixavam-no com imensa ternura. Como se fosse alguém de família que não vissem há muito.
Aquele Pai Natal realmente era diferente. Eu tinha a sensação já o ter visto em algum lugar. A barba era verdadeira, a barriga também. Distribuia sorrisos a quem quer que fosse, fazendo “OH OH OH!”. Mas um “OH OH OH!” mesmo á filme! Super simpático. Encantador. Senti tanta saudade.
Depois disto a minha mãe chegou, e reparou em mim a observá-lo. Ele dirigiu-se a nós e eu pensei que ele vinha com aqueles “OH OH OH!” e desejar um feliz Natal. Mas não. Ele estava só um bocadinho cansado de estar ali e desabafou. Perdeu toda a magia, mostrou a realidade e tornou-se numa pessoa vulgar. Começou a falar sobre a sua vida. É actor, já trabalhou na SIC e em filmes. A minha mãe disse-lhe que o conhecia da fonte da telha (vejam bem isto, depois de eu viajar no tempo com o homem, onde a conversa já ia). Ele afirmou que tinha sido polícia marítimo e que andou muitas vezes á porrada (acabei por me mijar a rir). Mas a minha mãe afinal não o conhecia só daí, já lhe tinha cortado a barba e o cabelo quando tinha o salão de cabeleireiros. Ele recordou-se. No fim acabou por dizer a agência de actores onde tinha crescido e a minha mãe (CLARO, mas era mesmo OBVIO que ela ia referir isto) pediu-lhe o número para ir lá comigo, porque eu adoro teatro, tenho jeito e canto muito bem (como é obvio também deixei fugir um sorriso nervoso e feliz ao mesmo tempo). Deu-me de imediato uma pequena força, dizendo que tinha um bom perfil e parecia-lhe ter futuro. Mostrou ser um homem de aventuras, que podia ficar ali a noite inteira a contá-las sem se cansar. Falando com a mesma garra com que as viveu.
Até que ele continuou o seu trabalho, tinha montes de crianças á espera para a fotografia com o velhote mais fofinho do mundo. Estavam muito felizes, tal como eu e tu um dia já estivemos por isso.
De um momento para o outro perdeu a realidade que nós lhe vestimos e cresceu uma outra pessoa.
Sinceramente? Não, não acredito no Pai Natal. Mas nunca deixei de acreditar que os meus peluches falam quando me vou embora.
Adorei aquele Pai Natal. Senhor Cipriano, Cipriano!

Sem comentários:

Enviar um comentário

é o quê? fala beeemm