
Hoje senti a tua falta, mais uma vez. Senti-me nervosa, fiquei com um nó no estômago e os meus olhos encheram-se de lágrimas. Tenho-me lembrado muito de ti, olho para as tuas fotografias e perco algum tempo a voltar atrás. Um tempo precioso.
Porque é que teve que ser assim? Porquê? Queria tanto que me visses crescer, queria tanto ensinar-te a ler e escrever. Ainda tinhas muito para ver e fazer.
Eras a única pessoa a quem eu dava beijinhos e abraços, a toda a hora, sem nunca me cansar. Puxava-te as rugas para trás fazendo-te voltar aos 40 anos. Mexia-te no cabelo e enchia-o de ganchos para ficares com um penteado moderno. Fazíamos bolos juntas. Passeávamos ao pé da maré e conversávamos.
Ainda hoje, passado 3 anos, não acredito bem no que te aconteceu. A minha inocência fazia-me acreditar que estava contigo para sempre, mas o destino mostrou-me que não é possível. Para mim, esse tal de "para sempre" deixou de existir. Por mais que pensa-se no assunto, não estava preparada. Nunca ninguém está.
Estavas tão perto de mim, COMIGO, bem guardada. Foi como me tirarem o ar para respirar. Sufocante.
Na última noite que te vi, quando ias para a cama, tirei-te aquele fio de prata que usavas desde que te conheço (já não te imaginava sem ele, já te caracterizava), apertei-o com força na minha mão e fechei os olhos. Tive a sensação que aquela era a última vez que o usavas. E foi mesmo. O mundo para mim parou.
Todas as palavras tinham agora sido sugadas pelo silêncio. Os sorrisos perderam tudo o que os iluminava. Tinha acabado tudo. Ficou então a casa (que estava sempre cheia) vazia. Nunca mais lá consegui entrar. Pelo teu cheiro, pelas tuas coisas, os meus brinquedos, os livros, o armário dos chocolates, a tua cama, o espelho e o pássaro (que só cantava para ti). A minha vida, até àqueles dias, tinha sido ali passada. Contigo. Não conseguia fazê-lo sem tu lá estares. Foste tu que sempre me acompanhas-te.
Um tempo depois de desapareceres, consegui (apenas) espreitar lá para dentro. Olhei para o sofá e lá estavas tu, sentada e a sorrir-me. Recuei. O meu coração parecia ter parado. Não voltei a repetir. Durante muito e muito tempo, nunca mais lá passei. Hoje que passo, tudo continua igual, apenas a tua porta se fechou para sempre. O cheiro, as pessoas, os costumes, as lojinhas, o sítio onde eu brincava na rua deixam-me com uma enorme saudade. Ainda lá tem o nosso rasto. Eu sinto isso. É como se tivessem bocadinhos de nós em todas as paredes e as nossas pegadas no chão. Mas para mim, o tempo ali, parou naquele dia.
Queria voltar a sentar-me contigo no sofá, contar-te tudo o que se passou na minha vida até agora, ouvir-te e abraçar-te, dizer que te amo e que me deixas-te uma saudade imensa. Ensinaste-me tanta coisa.
Amava voltar ao tempo em que nas vésperas de Natal ia escolher a minha prenda á loja da dona Palmira. Em que ia buscar o meu lanche, todos os dias, ao senhor Tavares sem pagar. Estar deitada ao teu colo, enquanto me cantavas uma música que a tua mãe te cantava quando eras pequena. Pedir-te para fazeres o meu prato favorito e nunca dizeres que não. "Discutir" contigo todas as novelas. Brincar com os netos das velhas todas da vizinhança. Estender o tapete á porta de casa e brincar horas infinitas, sozinha. Ameaçares dar-me murros quando me portava menos bem. E ler-te as minhas história, porque tu não mas sabias ler.
Foi uma mudança muito brusca que me fez aprender a moldar-me a uma nova vida, sem ti. Muito difícil.
Foi como estar numa casa iluminada apenas por duas velas. Uma com um pavio GRANDE que mesmo assim não brilhava muito. Outra com um pavio mínimo, que de uma forma inexplicável, brilhava imenso ! A que iluminava mais a casa, apagou-se. De uma hora para a outra, mesmo sem vento algum ter passado por ela. O pavio desapareceu, então não podíamos mais voltar a acendê-la. Parte da casa ficou ás escuras. Agora tínhamos que nos habituar a permanecer ali, sem aquela luz.
O choro é a única forma de me libertar e sentir que tu foste muito presente em mim.
Falta-me a coragem para ir lá casa, buscar todas as coisas que me marcaram para a vida. Não consigo. Parece que existe alguma coisa que me empurra para fora daquela porta.
Não chegas-te a realizar o teu sonho de me ver em palco. Mas mesmo que não vejas eu vou fazê-lo e com o maior orgulho. Até porque é um sonho meu, também.
Eu consegui continuar sem ti. Só tinha que conseguir. Por ti e por mim.
A ti sim te dito: OBRIGADO POR TUDO! Deste-me tudo o que podias e eu dava tudo para te ter de volta.
Acredita que dentro de mim, nunca te deixarei morrer avó.

Isto comoveu-me ;____;
ResponderEliminarNão sei o que passaste quando isso aconteceu, quer dizer faço uma pequena ideia pelo que descreveste ... É doloroso isso eu sei, mas da proxima vez vou estar ao teu lado tu sabes @