quarta-feira, 25 de novembro de 2009

mundo meu

Entrei. O silêncio que dominava aquele sítio era arrepiante, apenas ouvia a minha respiração, ignorando-o, este foi-se apagando no meu pensamento. Comecei a ver aquele salão encher-se de gente. Gente ansiosa á espera de algo maravilhoso. Lembrei dos momentos que tinha ali passado. Tantas brincadeiras de "faz de conta", tantos risos e tardes em que ficávamos a ver a chuva cair lá fora. Outras em que abria todos os estores para que o Sol pudesse invadir o palco e não nos sentíssemos sós naquele silêncio. Aquele palco onde tive a minha primeira actuação de dança e onde toquei saxofone. Tantas vezes que vesti outras personagens e ensinei danças. Brincadeiras inocentes que construíram o meu grande sonho. O espectáculo. Revivendo tudo isto outra vez, caminhava em direcção ao palco, com um sorriso choroso. Sempre me pedi a mim mesma para não perder esta paixão pelo espectáculo e a não perdi.
Parei e olhei. Olhei para trás e o salão estava cheio de gente. Despi os meus agasalhos de inverno e subi ao palco. Estava feliz. Mesmo estando sozinha (ou não), aquele momento estava a ser mágico. Depois de subir, tudo se tinha apagado. A sala estava vazia como quando entrei. Sem deixar que o silêncio domina-se mais um momento, pus música imediatamente, fechei os olhos, consegui encher a sala de gente outra vez e no palco fez-se luz. Ouvi a música como nunca a tinha ouvido. Ouvi com o coração e acredita que assim fica muito mais bonita. Deixei-me levar. Perdi a noção de tudo e cantei bem alto. Dancei como uma louca, sem parar. Imaginei que tinha alguém comigo, peguei-lhe na mão e juntei-a comigo na dança. E no fim, quando a música se calou, chorei. Chorei lágrimas de alegria, enquanto a verdadeira felicidade me completava. Encontrei-me naquele sítio. Era tudo tão meu, tão único. Nunca tinha tido sensação igual. Nunca me apercebido da magia que aquele lugar tinha após tantos anos ali passados. Não sentia falta de nada. Estava tudo naquele momento e as minhas lágrimas diziam mais que qualquer palavra. Tinha a certeza que aquele mundo era o meu. Deixei-me chorar o tempo que foi preciso. Agradeci esperando ter dado àquelas pessoas tudo o que esperavam, fiquei sozinha outra vez, quando ouvi alguém:


- "INÊS !"
- "Sim!? Vou já."

Desci do palco a correr, peguei no meu casaco e no cachecol e no caminho para a porta limpei as lágrimas a sorrir.

- "O que é que estavas a fazer?"


Ainda perdida em mim respondi:

- "Hã? Eu? A sonhar."
- "Cada um com a sua pancada.."

Nem me limitei a explicar nada. Não valia a pena. Ela saiu porta fora a abanar a cabeça, eu olhei mais uma vez para o palco e disse baixinho:

-Irei voltar.

2 comentários:

é o quê? fala beeemm