segunda-feira, 22 de março de 2010

A minha inocência - O mar e o céu

Estou a ser constantemente enrolada por ondas tão fortes que já vejo tudo ao contrário, ou então tudo se move á minha volta menos eu. Acho que já era tempo destas ondas pararem e me deixarem ficar sentada na areia apenas a observá-las. Mas disseram-me que tenho mesmo que aproveitá-las, porque depois de as conhecer consigo atravessar e apanhar todas quantas quiser e o mar ficará o meu melhor amigo. Será mesmo verdade? Sei que cada onda me dá umas 10 voltas ao cérebro. Não sei que pensar e fico aparvalhada. Apanham-me de surpresa. Dão-me vontade de rir e de chorar. De querer ir e de querer ficar. Cada onda cada sentimento. Já a minha mãe não é assim, é diferente de mim. Ela já as conhece todas, anda mais á vontade e não fica aparvalhada. Está sempre normal, mas mais cansada. Assim já não acho graça. Eu gosto de ficar aparvalhada e o cérebro levar as 10 voltas todos os dias. Costumo engolir muitos pirolitos por ainda não saber bem quando manter a boca fechada. O lado bom é que todas as ondas são diferentes, não são todas fortes e não as atravesso sozinha. Atravesso-as com pessoas que foram arrastadas para perto de mim e já não as atravesso com pessoas que o mar me levou. Outras mostram-me que vão ficar comigo e acabam por mergulhar para longe e desaparecer. Não as percebo. Mas isso já está a tornar-se banal. Já aprendi que temos qyue ser capazes de atravessar as ondas sozinhos, as pessoas vêm e vão como elas. Não podemos esperar que alguém venha ou que alguém fique, mas pode sempre aparecer alguém de surpresa. Já reparei que algumas daquelas que não nos dão a mão para atravessarmos juntas é porque têm medo, mas no fundo não são capazes de descolar de nós. Ficam connosco, ás vezes sem darmos conta.
Já me deixei ir na corrente algumas vezes. Quero ver como é apertar outras mãos com força, confiar, fechar os olhos e mergulhar mais uma vez. No fim, vejo outros sorrisos. E com essas novas pessoas vejo que afinal ainda existem milhões tipos de ondas para eu aprender a atravessar. Nem mesmo as pessoas a quem damos as mãos á anos. Muito menos o mar que é "macaco".
Sabes o que é que eu queria mesmo? Que tenho a certeza que é muito melhor que atravessar ondas e ficar aparvalhada? Ter ASAS. É a única coisa que invej neste mundo. São os seres que têm ASAS. A liberdade desses seres, sim, nunca ninguém alcançará. De vez em quando podem visitar o mar, mas quem está no mar não pode ganhar ASAS e ir por aí.
Voar, é essa a minha sede. Uma sede que nunca vou poder matar. Mas sempre posso fingir que a matei.

Dia do Pai (não acho que mereças começar por letra maiúscula) - escrito dia 19/03/10

É incrível a capacidade que tens de me fazer chorar, sem dizeres uma única palavra. Simplesmente por estares a meu lado. E tu perguntas: Isso é bom, filha? E eu respondo: Não, Pai. E porquê? Porque eu tenho saudades tuas. Saudades dos dias, semanas, meses e anos que me pertencem a teu lado, mas que passo (quase) sem ti. Tenho saudades de te pedir colo, de me rir contigo e de cantarmos juntos. És tão barraqueiro quanto eu. Mas sabes o que descobri? Que este Pai por quem em tanto espero e por quem eu choro, por achar que a vida passa e estou sem ele, já não existe. O Pai barrqueiro. O bom músico. O Pai FELIZ. O Pai que tinha amigos que já não se contavam pelos dedos das mãos. Esse Pai despareceu. Há muito tempo.
Hoje quando estive contigo, não tive vontade de te dar beijinhos e abraços, nem de te dizer o quanto te amo. Eu olhava-te e os meus olhos enchiam-se de lágrimas. Porque por fora vejo o Pai que já não conheço. Estás a deixar a vida passar por ti e as tuas filhas também. Não tens amigos, Pai. Diz-me há quanto tempo não cantas nem tocas com gosto? Consegues descreve-me a imensidão de saudades que sentes dos tempos em que eras FELIZ? O Pai que era o contrário do que és agora está tão pequenino que já nem sequer o vejo. Não sei se ainda te dás ao trabalho de lembrá-lo. Se não, devias dar-te. Fazia-te bem.
Tornaste-te um triste. Não existem melhores palavras. Até te esqueceste que para veres uma flor crescer precisas de regá-la todos os dias um bocadinho.
Amo-te Pai
P.S.- Mais uma coisa: estás velho, mas devias saber que nunca é tarde para se ser FELIZ. Também te esqueceste disso. Já não me conheces. Estás a perder-me, disso eu sei que tens consiência. Uma dia vais precisar de mim e ter saudades e aí eu já não as tenho.